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sábado, 22 de agosto de 2015

Destruindo mitos do BDSM


Texto de Don Marco Alighieri

Vi uns textos escritos por uns sem-noção esparramados pela internet recentemente, então aqui passarei alguns de seus conceitos pelo meu crivo, derrubando certos mitos ou engodos que estão sendo sustentados nesses casos.

"No BDSM você é mais amado, seu parceiro é mais honesto e fiel, sua relação é mais feliz, seu orgasmo mais gostoso e..."

- ...E a grama é mais verde né Bob Esponja?
NÃO... 1000 vezes NÃO! Isso aqui é pura idealização...
Viagem na maionese das piores, que só uma pessoa sem experiência real, bom senso ou objetivos coerentes teria. BDSMers e baunilhas encaram os mesmos exatos problemas em suas relações. A única vantagem que temos aqui, vem de quem de fato aproveita o tema "realização de kinks mútuos" para criar uma maior cumplicidade com o(s) parceiro(s) e, à partir daí, então troca falsos moralismos e hipocrisia por uma postura aonde assume seus desejos, vontades e necessidade de uma forma mais franca e cristalina.

De resto? É tudo a mesma coisa.

E o mesmo eventual canalha, abusivo, hipócrita, traíra, etc... que existe no baunilha também existe no BDSM. - NÃO SE ILUDAM!

"O BDSM lhe dará mais prazer sexual. Vai gozar com chibatadas. E..."

- E...? Não... Está MUITO errado isso aqui....
O fato é que proficiência técnica no BDSM, e proficiência sexual são coisas diferentes. É possível alguém ser um bom BDSMer como um todo - inclusive dominando algumas técnicas rebuscadas e, ao mesmo tempo, ser "um completo desastre na cama" (um total inepto em levar seu parceiro à um orgasmo). E vice-versa.

De resto?

Não deve-se confundir algum clímax prazeroso, excitação sexual ou qualquer outra coisa apreciável que possa ser obtido em certas técnicas com o orgasmo que é obtido com estimulação tipicamente da glande ou do clitóris. (Esse tipo de confusão é um erro primário, típico de quem não tem conhecimento de causa ou experiência consolidada.)

"No nosso verdadeiro BDSM a submissão é plena e ilimitada."

- OK... se isso for a fantasia que você realiza no seu Kink, beleza.
Você pode inclusive gritar isso na sessão ou relação à vontade para seu parceiro ouvir e curtir o seu entusiasmo. Só não vá confundir isso com a mecânica pela qual as coisas REALMENTE funcionam.

Na mecânica? NENHUMA submissão do verdadeiro BDSM é ilimitada de fato em sentido algum - e muito menos "plena" ao ponto de não haver livre-arbítrio da parte do Bottom.

"Fulano nasceu Dom/Domme, e por isso Ele(a) manda e seus bottoms obedecem de verdade."

- LOL... Aqui temos uma enorme falácia, que quase sempre é apregoada para o autor tentar autopromover-se, ou até mesmo justificar um comportamento autoritário. Temos muitos líderes natos que no BDSM são Submissos. Assim como temos pessoas sem essa habilidade e que por aqui ajustam-se como Dominadores. Em ambos os casos, a D/S ficando restrita à sessões ou à certos momentos específico, o que não só funciona muito bem e gera uma catarse interessante à ambos como também é - na prática - algo feito por uma enorme parcela dos praticantes. E não há nada de errado nisso. Assim como, na prática, qualquer um no BDSM idealmente tem que estar obedecendo qualquer coisa que seja porque de fato quer. (E não porque precisa.)

O inverso disso é que seria um tipo de FALSO BDSM, aonde a coisa não é consentida mas sim imposta.

"O verdadeiro masoquista ama a dor e o desconforto, e adora ostentar suas marcas."

- Já começa errado porque nem todo masoquista "ama a dor".
Masoquismo pode estar baseado em ter prazer com QUALQUER coisa que - tipicamente - seja tida como desagradável. E isso pode ser dor, humilhação, medo, ciúme, raiva, nojo, incerteza, perda de controle, limitação nos movimentos e uso dos sentidos, cócegas, etc... E, obviamente, qualquer um vai ter LIMITES para os níveis e os tipos de coisa que aprecia. Passa LONGE de alguém por aqui "amar qualquer dor". E logicamente, nem todo mundo gosta de ostentar marcas. (Alguns masoquistas inclusive terão "ficar com marcas de determinado tipo no corpo" como LIMITE.)

"BDSM é baseado na mais verdadeira entrega."

- Entrega do quê?
Da encomenda de acessórios fetichistas que alguém comprou pela internet?
Bom, aqui temos é mais uma firula colocando "Dominação e Submissão" como componente central e vital do BDSM.
Erm...
Sem querer ser chato?
Vamos à uma explicação do tio Don Marco Alighieri...

Na realidade o componente central e vital do BDSM é o "SadoMasoquismo".
Essencialmente porque "querer ceder o controle à alguém" (submeter-se) não deixa de ser uma forma de masoquismo. (Afinal, isso é tido como desagradável normalmente.) Mas "apreciar algo que normalmente é tido como desagradável" (masoquismo) NÃO é necessariamente uma forma de submissão à vontade de outra pessoa. (Tanto que há o "Topping-from-the-Botom" - que pode ser exemplificado no clássico "Quero que você me estapeie e me chame de vagabundo." dito e prontamente atendido por muitos por aí...)

E assim segue...

TUDO do BDSM, incluindo Bondage, Disciplina E Dominação/Submissão pode ser compreendido como subtipos de SadoMasoquismo!
E tacitamente? Porque o termo SadoMasoquismo é o mais usado e aceito desde os primórdios para se referir à prática como um todo.

Duvida? Ok... Façamos um simples teste...
Jogue "SM practices" ou similar no Google ou outro buscador:
- E encontrará o BDSM na primeira página.

Substitua por "DS practices":
- E terá artigos sobre tecnologia de rede e até um videogame portátil da Nintendo.

Troque "practices" por "relationship" em ambos os casos?
- E a pesquisa com DS trará um artigo só sobre Dominação e Submissão, enquanto que a pesquisa com SM trará - antes de um artigo análogo, específico sobre SadoMasoquismo - um artigo sobre o BDSM como um todo!

Se quiser chorar? Espernear? Me xingar no twitter?
Fique à vontade.
- Só não venha negar fatos.

"Feminista (ativista) e Submissa (bottom do BDSM) são antônimos."

- Bom, SE estamos falando de uma submissa que esteja dentro do BDSM consentido livremente, aonde apenas realizam-se kinks mútuos dos envolvidos de uma forma responsável e coerente com o objetivo da prática? Não tem NADA A VER uma coisa com a outra.

Feministas são mulheres que, em geral, estão buscando condições de igualdade na sociedade. E isso aqui é uma luta de campo político, social e/ou cultural dependendo do foco de cada uma delas e/ou de seus grupos.

Submissas do BDSM são mulheres que - por alguma razão - se excitam com ou apreciam de alguma forma a sensação de perda do controle. Podendo esse controle, dado que é consensual, ser retomado à qualquer momento. Logicamente não necessariamente estão interagindo com homens... Podem estar inclusive se submetendo à mulheres também. E - óbvio - se tratando de um kink, não podem ser pessoas sendo de fato exploradas ou escravizadas. Não há nenhum antagonismo entre uma coisa e outra, que não seja fruto de confusão ou ainda de exageros de algum tipo.

A única ressalva?
É se alguém por aí estiver confundido "submissa do BDSM" com "mulher que, na sociedade, é submetida ao homem" (machismo). E aqui sim, teríamos aquela situação de exploração, aonde tal mulher é desprovida de autonomia, forçada à uma posição de inferioridade real, ficando sob coerção de vários tipos de dependências (geralmente emocional, sexual, financeira, etc...) - e daí essas dependências passam então a ser usadas para obrigá-la à servir acatando ordens de homens em geral e de seu marido em particular enquanto que seus direitos e necessidades de vários tipos são relegados à segundo plano. E - para todos os efeitos - no BDSM esta pessoa não poderia ser qualificada como "submissa (bottom) de seu marido" de acordo com as boas práticas dado que está sendo COAGIDA de várias formas à obedecer (não consentindo livremente) - e passa também longe de estar à realizar um kink, e dessa forma a situação é incoerente com o verdadeiro objetivo do BDSM. Caindo então precisamente no perfil de alguém subserviente ou vítima de um parceiro abusivo. (Essencialmente alguém sendo prejudicado pelo que faz, no lugar de alguém fazendo o que gosta, e que irá apresentar sintomas de quebra e típicos danos psicológicos ao longo do tempo.)

Obviamente? Alguém que faça tal confusão entre os termos - defendendo este antagonismo - ou não compreende de fato o BDSM, ou está à utilizar seus conceitos indevidamente.

FIM

(Por enquanto... Até a hora em que inventarem mais besteiras novas.)

sexta-feira, 29 de maio de 2015

SADISMO PSICOLÓGICO X DOMINAÇÃO PSICOLÓGICA

Texto de Don Marco Alighieri


Por "psicológico" entendam tudo aquilo que "não é físico".

SADISMO PSICOLÓGICO, em contraste com o sadismo convencional - que é o spanking, trampling, uso de velas, etc... ,é :

- O uso de ofensas, xingamentos, humilhações puramente verbais... (Desde que o Bottom seja masoquista e curta essas práticas.)

- Discurso que crie medo ou receio no Bottom durante a cena. (Um tipo de roleplay muito comum nesse sentido, por exemplo, é quando o Top age e fala como se fosse um carrasco medieval. Ou como se fosse um personagem de filme no estilo do Hannibal Lecter. Ou ainda como se sua cena fosse um ritual de magia negra. Etc... )

Obs.: NÃO confundir roleplay de sadismo psicológico com ameaças reais. Por mais extremos os elementos que entrem na cena, trata-se de um ato consensual.


DISCIPLINA, que por sua vez, é um fetiche inteiramente baseado no psicológico – podendo agregar elementos físicos e outros fetiches nela mas não sendo dependente deles.
Nesse fetiche o Top assume a postura de uma autoridade (professor, instrutora, mestra, lord, rainha, etc...), coloca o Bottom para fazer “tarefas com algum benefício por completá-las” ou “castiga o Bottom por seu mau comportamento”.

- E nesse fetiche, o Bottom não é plenamente obediente como na D/s... Em várias versões, inclusive, o Bottom comporta-se como um “personagem arteiro” para ser castigado de propósito.

Obs.: Sendo, logicamente, tanto prêmios quanto castigos coisas que o Bottom consente em fazer. E a Disciplina deve sempre constituir “um jogo” entre as partes (não um elemento de chantagem, ameaça real, etc...). – Tipicamente é praticada só na cena ou em tarefas pontuais.

DOMINAÇÃO PSICOLÓGICA...?
Eu diria que é a "maior de todas as zebras que eu já vi" no BDSM.
Porque? Bem... Na prática TODA dominação/submissão é, por natureza, puramente psicológica (Ou seja, não depende de implementos e contatos físicos ou de outros fetiches, podendo ou não eles serem utilizados – E tipicamente, qualquer elemento físico na cena cai ou na categoria do BONDAGE ou do SADOMASOQUISMO).
Mas... Esse termo tem lá sua razão de existir... Algumas pessoas utilizam de "recursos avançados" em sua dominação. Chamam isso de Dominação Psicológica.

- E nem sempre isso é coerente com a consensualidade.
Para "separar o joio do trigo", vou mencionar tudo o que entra nesse contexto e marcar o que é prática abusiva ou equivocada.


[COERENTE COM O CONSENSUAL]

1 – NEGOCIAÇÃO: O ato de se convencer o Bottom a realizar uma prática nova ou contra a qual ele tenha um preconceito (opinião SEM nenhum fundamento). Nessa prática o Top vai utilizar seu carisma, dar e manter a palavra de que terá cuidado, passar segurança ou até mesmo oferecer um prêmio ao Bottom por aceitar experimentar aquela prática (este último sendo um componente de Disciplina). 

Obs.: É necessário respeitar um limite confirmado pelo Bottom, pois pode inclusive constituir uma fobia ou trauma. Isso é uma das premissas da negociação. Também é importante que o Bottom sempre esteja consciente dos riscos de todas as práticas – do contrário caracteriza manipulação.

2 – LEITURA: O ato de se utilizar procedimentos para se captar tendências do Bottom, então trazendo a este práticas que sejam afins à suas tendências. Entre os procedimentos poderia citar o mentalismo (leitura quente ou fria), leitura de sinais corporais, dedução lógica, empatia, etc.

Obs.: Essa prática também ajuda muito a tornar a cena mais intuitiva. É praticamente um pré-requisito para quem queira praticar a tríade CCC.

3 – CONDUÇÃO: O ato de se compreender detalhes íntimos do Bottom com técnicas, e de se utilizar esta informação tanto para trazer práticas afins quanto para mentorar o Bottom – ajudando-o à se descobrir. Entre as técnicas, menciono inteligência emocional, programação neolinguística, psicologia, análise, psych profilling, etc.

Obs.: Condução tem um imenso potencial em transformar o Top em uma forte referência para o Bottom, e é excelente força motriz para relacionamentos. Mas não pode constituir manipulação (utilização unilateral, em benefício do Top e detrimento do Bottom).

4 – MAESTRIA: Prática na qual o Top torna-se uma forte referência para o Bottom, conquistando uma profunda confiança e respeito. Basicamente é o ato de honrar sempre a palavra, demonstrar cuidados com o Bottom, respeitar sua constituição física e mental, demonstrar conhecimentos e experiência superiores, etc.

Surte efeito a longo prazo e não deve ser confundida com o ato de se impressionar o Bottom com declarações falsas, atuações teatrais, simular conhecimento ou coisa parecida.

5 – ADESTRAMENTO: É na prática uma forma de Disciplina, aplicada nas cenas, nas quais o Bottom executa tarefas sob as ordens do Top – podendo receber prêmios e “castigos”. Em alguns casos, são também passadas tarefas fora das cenas, se for o caso de um relacionamento D/s. É na prática um tipo de jogo entre Top e Bottom.

Obs.: Lembrando que o castigo – para ser consensual - tem que ser uma coisa com a qual o Bottom concorde (explicitamente ao combinar a cena ou implicitamente ao não invocar a palavra de segurança ou pedir para renegociar – dependendo do estilo). 


[SITUAÇÃO ATÍPICA]

Em alguns casos, transes hipnóticos, estados meditativos e demais estados alterados de consciência similares obtidos sem o uso de substâncias químicas podem ser componentes de cena. Algumas pessoas chamam erradamente estas práticas de “dominação psicológica”, sendo na realidade “transe erótico” a nomenclatura correta.

Obs.: Estas práticas são de alto risco, mas ainda assim possíveis de serem praticadas consensualmente com pelo menos a concordância do Bottom.


[INCOERENTE COM O CONSENSUAL - NÃO DEVE SER FEITO]

1 – MANIPULAÇÃO: O ato de se forçar a barra com o Bottom, usando falsas promessas, informações deturpadas, mentiras, “liturgias” que atentem contra a consensualidade, etc.

Ex: - "Esquecerei a ideia de um irmão de coleira pra você se fizer isso"
- Dizer que não será um bottom a altura de um TOP como ele se não praticar tal coisa.
- A competição criada que só te torna um verdadeiro botton se pratica a nível extremo
- A competição criada entre irmãos de coleira "ele faz você não consegue"

2 – INDUÇÃO: Utilização indevida de recursos como a indução comportamental, psicologia manipulativa, psicologia reversa, engenharia social, "mind hacking", etc... Para manipular a mente do Bottom sem o seu consentimento. – Tipicamente em benefício exclusivo do Top.

Ex.: - Levar o bottom a acreditar que uma certa ideia ou desejo é do bottom quando na verdade é dele.
- Levar o bottom a acreditar que está pronto para tal prática quando na verdade o TOP está tentando apressar o processo ou mesmo não liga para as consequências.

3 – AMEAÇA: Imposição de ordens do Top em relação ao Bottom, sob ameaça de retaliação. (Punição que não constitua fetiche do Bottom, com a qual ele não concorde consensualmente.)

Ex.: - Espancamento real, cárcere privado, vexame em público, etc.
- Criar no bottom o medo dele perder a coleira
- Criar no bottom o medo de desapontar o TOP
- O medo de ser visto pelo meio BDSM como um mau bottom.

4 – CHANTAGEM: Ameaça do Top em relação ao Bottom de revelar sua intimidade em público, revelar detalhes pessoais dele, fotos ou filmagens íntimas, etc... Com o intuito de forçar este à acatar suas ordens. Havendo também a chantagem emocional, que é caracterizada por ameaças de término de relacionamento, greve de sexo (não confundir com negação de orgasmo, que é um elemento válido em cenas), etc.

5 – LAVAGEM CEREBRAL: Procedimento pelo qual o Top afasta o Bottom da racionalidade e tolhe sua habilidade em questioná-lo. Geralmente é caracterizada pela imposição de um isolamento social, familiar e de recursos que poderiam ajudar o Bottom a perceber a situação de abuso. As vezes inclui uma dependência financeira forçada.

Ex.: - Criar dependência financeira, emocional, psíquica
- Afastar meios de informações (internet, pessoas, etc) que possam questionar as práticas do TOP.

6 – EXPLORAÇÃO DE FRAGILIDADE: O Top escolhe, como Bottom, pessoa portadora de uma fragilidade (carente, autodestrutiva, bulímica, bipolar, viciada em entorpecentes, etc...) e utiliza-se da condição provocada pelo problema. (Evitando que o Bottom se trate adequadamente.)


sábado, 28 de março de 2015

BRATS

Muito se fala das tais brats, citados como sendo uma espécie de submisso rebelde que apronta de tudo para perturbar e receber castigos de seu dono. Vamos desmistificar. 

O que é um brat?

Brat é um tipo de bottom focado na Disciplina. Não são submissos pois não sentem prazer em se submeter. Seu prazer consiste em provocar o Top de diversas formas, de acordo com sua personalidade, bem como impor resistência durante as sessões, mas sempre mantendo o respeito à limites do parceiro. Essa provocação já é algo esperado pelo Top, pois faz parte do jogo de disciplina, e este, então, reage à provocação "castigando o bottom" (praticando então o sadomasoquismo e/ou bondage).
A palavra "brat" é de língua inglesa e significa "fedelho ou pirralho(a)".
A origem desse bottom remete a prática do ageplay, mais precisamente ao infantilismo e a efebofilia - que dentro da cronofilia seria atração por adolescentes - onde o Top e o bottom realizam um roleplay nos papéis Daddy Dom ou Mommy Domme e Little Boy ou Little Girl. O brat surgiu como uma criança/adolescente bastante arteira e mimada interagindo com o Top em várias situações de malcriação e castigo, causa e consequência, etc. Na prática do ageplay encontramos as maiores referências aos brats, incluindo a cena clássica de punição onde o Top, sentado numa cadeira tendo o bottom brat de bruços em seu colo, dá fortes palmadas na bunda deste, por vezes com a nomenclatura "spanking the spoiled brat" (batendo no pirralho birrento).

Por que brat não é um tipo de submisso? Sempre leio isso por aí.

Brat não é submisso porque não tem prazer algum específico na submissão. Obedece quando quer, quando lhe é conveniente ou quando está sendo subjugado, mas dificilmente porque alguém espera que ele obedeça. Esse não é seu papel, foge da sua essência. O brat sempre vai tentar tirar partido das situações, da forma que mais lhe favoreça. Exemplos: um brat masoquista sempre vai tentar conseguir mais punições dolorosas pra se satisfazer, e vai usar de seus ardis pra irritar o Top se for preciso, seja questionando sua posição, seja questionando seus métodos ou a sua capacidade para certos feitos e falhando em tarefas. Aliás, questionar faz parte da provocação típica de alguns brats. É o típico: "Me domine se for capaz!". Um brat no bondage vai estar sempre tentando se soltar. No shibari, de vez em quando vai se mexer e tentar desfazer o trabalho de seu Top. No petplay vai ser um animal dificil de amansar, ou esnobe demais, ou excessivamente carente a ponto de irritar, ou preguiçoso a ponto de não querer brincar e etc. No military fetish corresponde a um soldado que falha ou questiona ordens.
Mas por que brat não é submisso?
Simples, um ser que desobedece e provoca sempre que vê oportunidade pode ter alguma essência submissa?! Submissos são focados em Dominação e submissão (D/s), brats em Disciplina (D). Logo, não devemos nomear como sendo submisso quem não está nem aí para a submissão. No entanto? Brat NÃO é um Bottom que desrespeite seu Top, que faça coisas fora dos limites deste, que ponha em perigo uma cena com elementos arriscados (velas, fogo, agulhas, facas, etc.) nem alguém que na relação vá abusar de seu parceiro minando sua paciência.

E os tais submissos rebeldes? São brats?

Não! Muitos Dominadores chamam de “bratty subs”, até de forma pejorativa, mas são Submissos que, por algum motivo, se rebelaram contra seus tops, passaram a agir de forma não esperada e/ou quebraram a hierarquia. “Submissos rebeldes” normalmente teriam prazer em submissão. Se o motivo for puramente pirraça ou algum "teste", estes Subs aprontam com seus Tops mas logo se arrependem retornando ao seu comportamento normal, sendo a rebeldia um estado momentâneo, passageiro. Um brat, em contrapartida, provoca e sente prazer em ter provocado. É parte do seu prazer e de sua maneira de proceder em cena.
Em outros casos, trata-se de reação normal de revolta e/ou imposição de limites, quando o Top gera algum tipo de insatisfação por falhar em dialogar na relação, desrespeitar seus limites, fomentar ciúme e/ou receios com irmãos ou irmãs de coleira, ter má conduta dentro do meio BDSM, ameaçar ou praticar o abandono do bottom, desrespeitar seus sentimentos e/ou objetivo do relacionamento, etc. – o que, nesse caso não é rebeldia, mas um protesto coerente.
Há também as situações em que foi colocado como submisso um Bottom SAM a característica de sentir prazer na Submissão, ou que talvez tenha preferência por uma submissão mais branda ou somente em cena, ou ainda um Switcher – ou alguém que esteja se descobrindo um Switcher - com vontade de praticar seu lado dominante de alguma forma e, por consequência, sentindo-se tolhido. E então este Bottom não aguenta a situação a longo prazo e protesta, sendo esta uma situação em que houve erro de um dos parceiros (ou de ambos): falta de entendimento mútuo, empolgação demasiada, O rótulo foi imposto pelo Top ou ainda houve tentativa de "agradar o Top à qualquer custo" por parte do bottom. E - claro - não nos esqueçamos do famoso SAM (Smart assed Masochist) que seria uma pessoa masoquista porém não-submissa colocada no papel de submisso e que na realidade vai tentar mandar na cena e/ou no Top, agindo como um "espertinho" no mau sentido. (E este não é um Brat... Aqui teríamos uma pessoa que se sairia muito melhor como Masoquista-não submisso, Dominador Masoquista ou coisa parecida, mas que age de forma manipulativa adotando o rótulo de submisso OU trata-se de alguém que foi colocado erradamente no papel de submisso por um Top inapto em reconhecer seus traços.)
Ou seja: subs rebeldes não são brats. São apenas subs agindo de forma que seus donos não compreendem e, portanto, recebem apelidos que seus Tops considerem pejorativos.

E por quê uma boa parte dos Tops não gosta de brats, ao ponto de usarem o termo pejorativamente?

A maioria dos Tops brasileiros se identifica com o tipo Dominador (Dom) e a maioria dos bottoms se identifica como sendo submissos (subs). O tipo Dom não é nem de longe o ideal para um brat. Brat não dá certo em D/s, pois a intenção do Dom será a de tentar “converter” esse brat num tipo submisso, coisa que não está na essência e nem nos planos deste bottom. É um cabo de guerra sem fim, onde um vai ficar medindo forças com o outro e não vão chegar a lugar algum. Geralmente se torna uma relação bastante aborrecida de se viver. Na maioria das vezes que Top do tipo Dom diz que não gosta de brats, é devido a dois motivos:
1- Se interessou por uma e depois se deu mal porque quis transformar ela numa submissa. 2- Ouviu outros Doms dizerem que não gostam de brats e resolveu recitar o mantra sem nem ao menos entender que nem só de Dom e sub, vive o BDSM.

E qual é o Top que gosta de brat?

É o Tamer! Tamer significa "domador" em inglês. É um Top que não sente prazer na sessão em dominar, mas sim em disciplinar constantemente uma pessoa rebelde. Por vezes gosta de sentir-se "castigando-a" com as práticas. E tudo isso faz parte da mecânica da Disciplina. Nesse ponto a Disciplina de um Brat é muito mais baseada nos "castigos", e são estes que criam contextos para a prática de Sadomasoquismo ou Bondage (dentro dos limites e das preferências do Brat). Estas práticas, aliadas à sensação de punição, são parte do jogo entre Brat e Tamer . Enquanto que a Disciplina com outros tipos de Bottoms geralmente coloca suas práticas favoritas e alguns agrados como "prêmios" para suas ações, e como "castigos" coisas percebidas como enfadonhas (colocar o Bottom sentado sozinho em um canto) ou que não sejam suas favoritas mas que estejam ainda assim dentro de seus limites.
Quem geralmente se torna um bom Tamer?
Tipicamente quem não goste de bottom muito submisso, escravo ou obediente demais. Que esteja disposto a conhecer e respeitar esse bottom da forma que ele é. Que entenda e goste desse jogo de disciplina sem ambicionar, posteriormente, transformar esse bottom em algum outro tipo que lhe agrade mais. Quem aspira a se tornar um Top desse tipo deve também entender a diferença básica entre ter um bottom que se submete a ele (Submisso) e ter um bottom a quem ele deve subjugar (Brat). O submisso oferece sua submissão ao Top prometendo ser obediente, bom submisso, servil, gentil, e etc. O brat não tem submissão nenhuma pra oferecer, sendo parte da mecânica da relação o Top ter que subjugá-lo para que este se dê por vencido. E quando consegue isso, é algo temporário. Não existe promessa de obediência por parte do brat. Quando menos se espera, mais cedo ou mais tarde, ele aprontará outra vez, e outra vez, e outra vez.

É possível trabalhar Brats e Subs na mesma sessão?

Sim. Em primeiro lugar, o Top logicamente precisa compreender e apreciar ambas as mecânicas (ser Tamer e Dominador). Em segundo? Combinar a sessão para que todos ajam dentro de seus papéis SEM que o brat atrapalhe a interação do Top com o Submisso. Em terceiro? Aproveitar a sinergia na qual: - As interações com o Submisso, aonde ele obedece o Top à risca e recebe as práticas, geram contexto para o Brat se rebelar quando for a vez dele. - As interações com o Brat, aonde ele se rebela e é "punido" por sua audácia, geram ao Submisso uma impressão maior ainda de poder do Top.

Autores: Lili Leverdi e Don Marco Alighieri